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LOBOS DO CARAÇA E O TURISMO – COEXISTÊNCIA COMPROVADA EM ESTUDO DE CONSERVAÇÃO

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Um estudo recente realizado na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário do Caraça, em Minas Gerais, trouxe à luz dados animadores sobre a convivência dos lobos-guarás com os visitantes. O projeto, intitulado “Turismo de observação do lobo-guará como ferramenta de conservação”, revelou que os icônicos animais demonstram uma habituação natural e saudável à presença humana, principalmente no famoso adro da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens.

O lobo-guará, um símbolo de resistência e equilíbrio da fauna brasileira e classificado como vulnerável, encontra no Caraça não só abrigo, mas um ambiente onde o turismo consciente pode ser uma poderosa ferramenta de preservação.

Interação Sem Prejuízo ao Comportamento Natural

Os resultados do estudo, apresentados durante o Festival do Lobo no início de outubro, indicam que a interação dos lobos com o público não interfere negativamente em seus comportamentos naturais. Apesar de transitarem próximos às áreas de visitação, os dados revelam que os lobos:

  • Mantêm sua independência: Utilizam preferencialmente áreas preservadas da RPPN para forrageio (busca por alimento) e descanso.
  • Tempo de permanência curto: O tempo que passam na área próxima aos humanos é breve, demonstrando que os animais não desenvolveram dependência do espaço.
  • Coexistência pacífica: Em horários opostos aos das visitas (pôr do sol ao amanhecer), os lobos frequentemente utilizam as trilhas turísticas.

O monitoramento detalhado, realizado com colares GPS e câmeras trap, permitiu acompanhar a área de vida de quatro indivíduos, revelando que a amplitude de seus territórios está dentro dos padrões normais da espécie em ambiente selvagem.

Lobo-guará registrado na RPPN Santuário do Caraça – Divulgação

“O ambiente protegido que o Caraça oferece garante não apenas a segurança dos lobos, mas também ambientes propícios para eles se alimentarem, se reproduzirem e coexistirem com o turismo,” destacou Bernardo Borba, coordenador ambiental do Santuário.

Casais e Seus Territórios Distintos

Atualmente, dois casais de lobos-guarás residem na RPPN:

CasalIdadesÁrea de VidaMovimentação
Sampaia (8 anos) e Zico (6 anos)Ocupam a área central do Santuário.Sampaia: média de 106,21 km² (430 dias). Zico: 161,67 km² (430 dias).Mais habituados ao entorno da igreja (“Hora do Lobo”).
Petrina (3 anos) e Lourenço (5 anos)Vivem na “baixada caracense”, região mais rural e afastada.Petrina: 32,61 km² (54 dias). Lourenço: 26,24 km² (219 dias).Frequentam áreas mais distantes, incluindo trechos degradados, sem registros no entorno da igreja.

O comportamento observado está alinhado com as características naturais do lobo-guará, que é extremamente territorialista. Rogério Cunha, coordenador do CENAP/ICMBio, explicou que isso “explica por que os casais mantêm áreas de vida distintas sem competir pelo espaço”.

A Hora do Lobo e a Saúde dos Animais

Lobo-guará registrado na RPPN Santuário do Caraça, nas proximidades do adro da igreja

O tradicional “Hora do Lobo”, onde visitantes aguardam a aparição noturna dos animais no adro, serviu como um laboratório valioso. A loba Sampaia se destacou por ser a mais à vontade com os visitantes.

No entanto, mesmo com a habituação, exames laboratoriais mediram os níveis de estresse dos lobos e comprovaram que eles convivem bem com o fluxo humano no Santuário, graças, principalmente, à segurança oferecida pela área. Os animais também demonstram buscar áreas tranquilas sempre que sentem necessidade.

O projeto, coordenado pela RPPN Caraça em parceria com o Instituto Pró-Carnívoros e o CENAP/ICMBio, reforça que o turismo, quando realizado de forma sustentável e consciente, é uma ferramenta poderosa de preservação e pesquisa para a fauna brasileira.

O projeto foi viabilizado pelo programa Semente do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que destina recursos de medidas compensatórias a iniciativas socioambientais. Segundo Bernardo Borga, o programa prova que “é possível aliar conservação ambiental a práticas sustentáveis de turismo.”

O Santuário do Caraça continua a ser um refúgio que alia conservação, segurança e pesquisa para o lobo-guará e um exemplo da importância da preservação do Cerrado.

Capa: Lobo-guará registrado na RPPN Santuário do Caraça – Divulgação