Com um investimento de R$ 5 milhões, a Rua Sapucaí, em Belo Horizonte, reabriu ao público em 2025 com uma nova cara. A revitalização, que durou um ano, transformou os 600 metros da via em um espaço de convívio, arte e mobilidade ativa. O projeto se inspira nos “superquarteirões” de Barcelona, um modelo de urbanismo que prioriza pedestres e ciclistas em detrimento dos veículos.
A obra faz parte do programa municipal “Centro de Todo Mundo”, que busca requalificar o hipercentro da capital mineira. Mais do que uma simples reforma, a revitalização da Sapucaí marca uma mudança na forma como a cidade enxerga seus espaços públicos.
A estratégia adotada pela Prefeitura de Belo Horizonte para a Rua Sapucaí foi baseada nos “superquarteirões” de Barcelona, que propõem o fechamento parcial de ruas ao tráfego de veículos para criar áreas de convivência. Segundo Alexandre Nagazawa, arquiteto e urbanista, o conceito transforma quarteirões em “ilhas de calmaria, com prioridade para pedestres, jardins e espaços de estar”.
Nagazawa ressalta que o projeto resgata ideias de urbanistas como Jane Jacobs e Jan Gehl, sob a abordagem de placemaking, termo que enfatiza o papel dos espaços urbanos como catalisadores da vida em comunidade.
Um projeto alinhado com o passado
A requalificação da Sapucaí não é um caso isolado em Belo Horizonte. Outros projetos, como o fechamento das diagonais da Praça Sete, em 2003, e a reforma da Praça da Savassi, em 2012, já sinalizavam essa direção. A diferença, segundo Nagazawa, é a “maturidade técnica e política para executar isso com qualidade”, além de uma maior participação popular.
A revitalização reforça o caráter já existente da rua, um ponto cultural e gastronômico da cidade, com um foco especial em arte urbana. A obra incluiu pavimentação de plano único, nova drenagem, ciclovia bidirecional, mobiliário urbano, paisagismo e um reforço no mirante, com a instalação de lunetas de observação gratuitas.
Os desafios da transformação urbana
Apesar dos benefícios esperados, a obra enfrentou críticas. Comerciantes locais relataram uma queda de até 80% no faturamento durante o período de um ano. Nagazawa explica que esse tipo de transtorno é comum em intervenções urbanas, mas que o retorno a longo prazo pode ser “muito mais robusto do que o que se perde temporariamente”.
Ele também alerta para os riscos, citando o High Line de Nova York, que gerou um boom econômico, mas também resultou em gentrificação. “A cidade precisa estar atenta para equilibrar esse crescimento com inclusão”, pondera o arquiteto.
Diferente de outras intervenções urbanas, o projeto da Sapucaí contou com um processo de consulta pública, que envolveu cerca de 7 mil pessoas entre moradores, comerciantes e pesquisadores. Nagazawa destaca a importância desse diálogo para a criação de um verdadeiro “senso de pertencimento”.
A revitalização está alinhada com o Plano Diretor de Belo Horizonte, que incentiva o uso misto do solo e busca uma cidade mais acessível para pedestres. “A obra física é só o começo. É preciso integrar transporte público, garantir policiamento, promover eventos e assegurar manutenção constante para que o espaço continue vivo”, finaliza o arquiteto.
Capa: Rua Sapucai-BH-Crédito: Rodrigo Clemente -PBH












































