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CHORO DAS ÁGUAS: UM MERGULHO NA MEMÓRIA, NA EMOÇÃO E NA SOLIDARIEDADE

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Há espetáculos que a gente assiste. Outros, a gente vive. Foi o que aconteceu em Belo Horizonte no último final de semana, quando Zizi Possi apresentou “Choro das Águas”. Mais do que um espetáculo, foi uma imersão — um chamado para olhar para dentro, revisitar memórias, acordar sentimentos que pareciam adormecidos e, assim, abrir-se para o outro e para o mundo. Pois a ideia é não permanecermos indiferentes às dificuldades do próximo nem às consequências das nossas ações sobre a natureza.

O release do espetáculo dizia que não se tratava apenas de música, mas de um gesto. Para mim, foi um mergulho para dentro, uma travessia guiada por canções que despertaram sentimentos adormecidos e me transportaram por diferentes momentos da vida. Muitas vezes, a voz de Zizi foi trilha sonora de fases que ajudaram a moldar quem sou hoje — e, naquela noite, era como se essas histórias voltassem à tona em forma de música.

O show também nos lembrava que cada gesto importa. O mergulho interior que a música provoca não é apenas pessoal: ele desperta a consciência sobre a vida ao redor — das pessoas, das comunidades e do planeta. Não podemos ignorar a dor alheia nem os desastres que, em grande parte, surgem de escolhas humanas: cortar árvores, poluir rios ou sufocar os ares. A arte de Zizi Possi transforma emoção em gesto: olhar para dentro para poder estender a mão ao outro.

Entre as interpretações, uma das mais marcantes foi “Olho de Peixe” (Lenine). Quando Zizi cantou “na cabeça do homem tem um porão… diz aí o que tem no sótão?”, A mente é como um baú dentro de nós, convidando a escolher o que guardar, o que liberar e o que jamais se deve esquecer. A canção lembrava que nossa mente é feita de compartimentos, e que somos nós que decidimos o que permanecerá vivo.

Mesmo fora do repertório, outras músicas se insinuaram pela memória. Foi o que aconteceu com “A Paz”, cujo refrão ressoava como um sussurro inevitável:

“Eu vim / vim parar na beira do cais / onde a estrada chegou ao fim / onde o fim da tarde é lilás / onde o mar arrebenta em mim / o lamento de tantos ais.”

E como canta a própria artista em seu tema do show:

“Essa meu choro não cabe no peito, arte por dentro e rola na face, molha por fora e estraga o desface, lava esse coração. Esse meu choro é muito doído, me corta a fala, me tapa os ouvidos, me fere os olhos como vidro moído…”

Naquela noite, percebi que o “Choro das Águas” não era só de Zizi Possi, mas também nosso. Cada lágrima, cada lembrança e cada suspiro se transformaram em pequenos rios de emoção que atravessavam o teatro, conectando a experiência íntima à urgência de solidariedade e cuidado com o planeta. Saí do espetáculo com a certeza de que a música tem o poder de nos reconectar — com nós mesmos, com os outros e com tudo o que realmente importa. E que, às vezes, é preciso deixar que o choro escorra, para que o coração lave e recomece, mais sensível e desperto.

Capa: Divulgação