Por mais de cem anos, o Guia Michelin decidiu onde comer.
Depois, com as Chaves, decidiu onde dormir.
Agora chega a maior novidade do universo enológico em muito tempo: a Michelin criou sua própria classificação para produtores de vinho, a Uva Michelin, e o mundo do vinho, acostumado a viver sob a régua de críticos como Robert Parker e publicações como Wine Spectator e Decanter, ganhou um novo player pesado na disputa por dizer o que é excelência.
A lógica é diferente da que estamos acostumados. Em vez de pontuar uma garrafa específica, como fazem os críticos tradicionais safra a safra, a Michelin decidiu avaliar o produtor como um todo, a partir de cinco critérios: qualidade da agronomia, domínio técnico, identidade, equilíbrio e consistência. Ou seja, não interessa se você teve um ano de sorte com o clima, interessa se você sustenta um padrão de excelência ano após ano.
As distinções vão de Uma a Três Uvas, complementadas por uma lista de “produtores recomendados”.
A estreia aconteceu em julho, em Dijon, e contemplou a Borgonha, Bordeaux já está confirmada para as próximas edições. Nove propriedades receberam a nota máxima de Três Uvas (forma como pontuam as vinícolas, em vez de estrelas) entre elas nomes lendários como Domaine de la Romanée-Conti, Domaine Leroy, Coche-Dury e Roumier, ao lado de produtores mais jovens, como Domaine Cécile Tremblay, o que sugere um esforço real de não premiar apenas quem já é famoso, mas quem realmente entrega consistência no produto final, na taça.
Faz sentido, do meu ponto de vista como sommelière, comemorar essa mudança de lógica. O consumidor final costuma tomar decisões de compra baseado em um número isolado, 92 pontos aqui, 95 ali, quando na verdade o que garante uma boa experiência é a confiança no produtor ao longo do tempo. E a Michelin não chega como amadora nesse universo: desde 2019 é dona da Wine Advocate, a publicação fundada pelo próprio Parker, o que lhe dá um lastro editorial que poucos concorrentes conseguem igualar.

Mas nenhuma novidade dessa magnitude nasce sem atrito. Dias depois do anúncio, a Domaine Arnoux-Lachaux, uma das propriedades mais respeitadas de Vosne-Romanée, veio a público pedir que a Michelin a retirasse da seleção. A casa recebeu Uma Uva, mas mantém, desde a safra 2020, a política declarada de não submeter seus vinhos a nenhuma crítica ou pontuação externa, e mesmo assim foi incluída sem ser consultada. O episódio expõe uma questão que a Michelin ainda vai precisar resolver: como equilibrar a autoridade de avaliar com o direito de um produtor não querer ser avaliado.


De todo modo, o gesto está dado: o vinho, como a gastronomia e a hotelaria antes dele, agora também tem sua estrela, ou melhor, sua uva. E acredito que veremos, nos próximos anos, essa classificação se tornar tão comentada em mesas e cartas de vinho quanto as estrelas já são nos restaurantes e adegas.
Fica então a provocação: você confiaria mais em um vinho por causa de uma Uva Michelin no rótulo, ou acha que essa é só mais uma etiqueta de marketing disputando espaço com quem já avalia vinho há décadas?
📷 Capa – Crédito: Guia Michelin












































