No coração de Belo Horizonte, um movimento silencioso mas poderoso ganha força. Mulheres que cruzaram oceanos e fronteiras, carregando sonhos e tradições, encontram na capital mineira não apenas um novo lar, mas a oportunidade de reconstruir suas vidas através do empreendedorismo. É essa realidade que a Festa Sem Fronteiras celebra em sua segunda edição, transformando o Parque Orlando de Carvalho Silveira em um verdadeiro laboratório de integração cultural.
O evento, que acontece neste sábado (16), das 10h às 19h30, com entrada gratuita, representa muito mais que uma celebração cultural. É o resultado tangível do trabalho do Coletivo Cio da Terra, uma rede de apoio que há quase uma década se dedica a garantir direitos e promover a autonomia de mulheres migrantes em Minas Gerais.
A Força Por Trás da Festa
Criado em 2016, o Coletivo Cio da Terra nasceu da necessidade de criar uma rede de proteção e empoderamento para mulheres que escolheram o Brasil como destino. Mais que uma organização, é uma família multicultural que atua desde o ensino de português até assistência emergencial, sempre com o olhar voltado para a dignidade humana.
“Nosso trabalho é feito com muito cuidado, afeto e em coletivo. Mais do que tudo, a gente defende que migrar é um direito”, explica Denise Fantini, argentina e coordenadora do coletivo. “Toda pessoa migrante, refugiada ou apátrida é, sim, uma pessoa que tem direitos, com voz, com potência, com história.”
A festa emerge como uma das estratégias mais eficazes do coletivo para combater a xenofobia e gerar renda para suas integrantes. Ao ocupar o espaço público com suas culturas, essas mulheres não apenas se tornam visíveis, mas também educam a sociedade local sobre a riqueza da diversidade.
A programação musical desta edição promete uma jornada sonora única. O destaque fica por conta de Yaku Urku Quechua, artista que traz em sua apresentação “Realeza de Abya Yala” uma profunda conexão com as tradições andinas. Através de instrumentos ancestrais e cantos que ecoam memórias milenares, o espetáculo se apresenta como um chamado ao cuidado com a Mãe Terra.
A festa também conta com o retorno de dois nomes que já conquistaram o público belo-horizontino: DJ Rizo, nicaraguense que incendeia a pista com salsa e reggaeton, e DJ Amaranta, chilena que mescla raízes latinas com batidas eletrônicas contemporâneas.
Empreendedorismo Como Resistência
O verdadeiro coração da Festa Sem Fronteiras está na praça de alimentação e no espaço de artesanato, onde o empreendedorismo feminino migrante ganha vida. Mulheres da Venezuela, Colômbia, República Dominicana, Chile, Peru, República Democrática do Congo, Ucrânia e Haiti transformam suas tradições culinárias e artísticas em fonte de renda e independência.
Cada prato servido carrega histórias pessoais de superação. Cada peça artesanal exposta representa não apenas habilidade técnica, mas também a preservação de culturas que poderiam se perder no processo migratório. É através desses pequenos negócios que essas mulheres reconquistam sua autonomia e dignidade.
A Festa Sem Fronteiras funciona como um termômetro das transformações demográficas de Belo Horizonte. A capital mineira, tradicionalmente conhecida por sua hospitalidade, tem recebido um número crescente de migrantes e refugiados nas últimas décadas. O evento serve como ponte entre essas comunidades e a população local, promovendo o entendimento mútuo e quebrando estereótipos.
Para as crianças, a festa oferece o Espaço Kids, garantindo que as próximas gerações cresçam em um ambiente de valorização da diversidade. É um investimento no futuro de uma sociedade mais inclusiva e plural.
O Legado de uma Festa
Mais que entretenimento, a Festa Sem Fronteiras representa um modelo replicável de integração social. Mostra como políticas de base comunitária, organizadas pelas próprias pessoas afetadas, podem ser mais eficazes que grandes programas governamentais.
O evento também destaca Belo Horizonte como uma cidade que, apesar dos desafios, consegue abraçar sua diversidade crescente. Cada edição da festa consolida a capital mineira como um destino acolhedor para quem busca recomeçar a vida longe de sua terra natal.
A Festa Sem Fronteiras acontece neste sábado, 16 de agosto, das 10h às 19h30, no Parque Orlando de Carvalho Silveira, bairro Silveira, região Noroeste de Belo Horizonte. A entrada é gratuita e a programação completa pode ser acompanhada pelas redes sociais do Coletivo Cio da Terra.
Migrar não é apenas trocar de país; é reconstruir identidades, sonhos e futuros. A Festa Sem Fronteiras prova que, quando bem acolhida, a diversidade não divide, mas multiplica possibilidades.
Capa: Crédito: Festa Sem Fronteiras/Arquivo Pessoal












































