Há espetáculos que entretêm. Outros emocionam. E existem aqueles raros encontros em que a arte ultrapassa o palco e toca algo quase sagrado dentro de nós. Foi exatamente essa sensação que vivi ao assistir Sandra Pêra interpretar a obra de Gonzaguinha.
O espetáculo chegou a Belo Horizonte através da produção local da Alves Madeira Produções, em um convite assinado por Pedrinho Alves Madeira, cuja sensibilidade na escolha de projetos artísticos merece destaque. Há produtores que apenas realizam eventos. Outros compreendem a potência dos encontros que a arte pode provocar — e foi exatamente essa sensação que ficou ao assistir a essa noite tão delicada, intensa e necessária.
Sentada na plateia, tive a impressão de participar de um rito. Uma celebração da memória, da música e, acima de tudo, da vida. Não era apenas um show. Era quase uma oração coletiva conduzida por canções que atravessam gerações e continuam encontrando abrigo no coração de quem escuta.
Sandra não apenas canta Gonzaguinha. Ela revive histórias, compartilha afetos, abre lembranças e nos conduz por um universo onde cada letra parece ganhar ainda mais profundidade. Entre uma música e outra, o público mergulhava nas histórias dos dois, nas conexões afetivas, nos bastidores de uma amizade construída através da arte e da sensibilidade.
E talvez seja justamente isso que sempre mais me tocou em Gonzaguinha: ele não cantava apenas sobre amor. Ele cantava a vida.
Cantava as dores humanas, os encontros, as esperanças, os tropeços e a insistência em continuar acreditando. Em suas composições, a vida nunca aparecia de forma superficial. Ela vinha intensa, pulsante, questionadora e profundamente humana.
Teve ainda um dos momentos mais delicados e emocionantes da noite: a participação de Amora Pêra, filha de Gonzaguinha e responsável pela direção do espetáculo ao lado da mãe, Sandra Pêra.
Amora surgiu descalça no palco, quase como quem pisa em um território sagrado, trazendo uma presença ao mesmo tempo confortável, sensível e tímida. Ao dividir com a mãe a canção que dá nome ao espetáculo, “Eu Apenas Queria Que Você Soubesse”, parecia nos lembrar, sem precisar dizer muito, que a vida continua ecoando através da memória, dos afetos e das pessoas que permanecem carregando histórias, canções e ausências transformadas em amor.
Ao final da apresentação, ficou aquela sensação rara de quem não apenas assistiu a um espetáculo, mas viveu uma experiência. Saí do teatro em silêncio, tentando ainda compreender tudo o que havia atravessado aquela noite. Talvez porque Gonzaguinha continue sendo necessário. Talvez porque suas canções ainda conversem diretamente com nossas fragilidades, esperanças e desejos de humanidade. Ou talvez porque, na voz e na entrega de Sandra Pêra, sua obra deixe de ser apenas lembrança e volte a pulsar diante de nós, viva, intensa e profundamente atual.

Em tempos tão apressados, assistir a esse encontro entre música, memória e afeto foi quase um convite para sentir mais devagar. E poucas coisas hoje são tão preciosas quanto isso.
📷 Crédito de Imagens : Eugênia Mara












































