Decisões do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep) valorizam a ancestralidade afro-brasileira, os saberes tradicionais da produção mineira e a memória histórica de Araxá.
Em uma sessão marcante realizada no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), aprovou o registro das Expressões do Samba em Minas Gerais e dos Modos de Fazer Cachaça de Alambique como patrimônios imateriais do estado. Na mesma ocasião, o conselho oficializou o tombamento estadual da Casa de Dona Beja, localizada no município de Araxá.
A secretária de Estado Adjunta de Cultura e Turismo, Josiane de Souza, presidiu a reunião e ressaltou a relevância social, econômica e cultural do pacote de salvaguardas:
“Reconhecemos três patrimônios fundamentais. O registro dos modos de fazer cachaça de alambique permite que saberes não se percam e abre a oportunidade para que vários produtores, inclusive quem não está cadastrado nos meios oficiais, sejam valorizados. O reconhecimento do samba também valoriza uma expressão de resistência e demonstra a força da afro-mineiridade. Já o tombamento da Casa de Dona Beja preserva a memória de uma mulher importante para o início do século XIX e a história de Araxá”
Samba: resistência e celebração da afro-mineiridade
O registro do samba reconhece a presença histórica, a resistência e a diversidade da manifestação no território mineiro, onde atualmente estão mapeados e cadastrados 246 grupos.
A elaboração do dossiê pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) atendeu a uma solicitação do coletivo de sambistas Mestre Conga. Raimundo Nonato da Silva, um dos coordenadores do coletivo, definiu o momento como uma reparação histórica para os artistas e para a cultura popular:
- Memória e ancestralidade: “É um momento histórico. Nossos ancestrais lutaram tanto por essa cultura. Na época da ditadura, quando o samba era proibido, sambistas apanhavam, eram presos, e o samba era visto como coisa de vagabundo e cachaceiro. Hoje, é reconhecido como patrimônio cultural. Isso é uma vitória para os sambistas”.
Cachaça de alambique: saberes e tradição familiar
Líder nacional na produção de cachaça de alambique, Minas Gerais alcança um volume estimado de 13,5 milhões de litros por ano. De acordo com dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), o estado soma 630 alambiques devidamente registrados.
O reconhecimento abrange técnicas ancestrais de produção transmitidas entre gerações, com potencial de ampliar a competitividade dos produtores e valorizar o produto nos mercados nacional e internacional.
- Impacto nas comunidades produtoras: Para Sara Regina Santana Santos, cuja família produz a cachaça Guaraciaba há 62 anos, o título traz visibilidade e desfaz preconceitos históricos: “Esse reconhecimento do Iepha vai abranger muitas famílias que vivem da cachaça e mostrar o valor da bebida para os mais jovens. Antes, a cachaça era malvista e hoje as pessoas estão valorizando mais”.

Casa de Dona Beja: salvaguarda da memória de Araxá e do protagonismo feminino
Construída entre as décadas de 1820 e 1830, a edificação conhecida como Pensao Tormim reúne elementos característicos da arquitetura urbana mineira do século XIX. O tombamento protege a estrutura física e resgata a trajetória de Anna Jacintha de São José, a Dona Beja.
| Aspecto | Detalhes da Proteção Cultural |
|---|---|
| Imóvel Protegido | Casa de Dona Beja / Pensão Tormim (Araxá-MG) |
| Arquitetura | Exemplar da arquitetura urbana residencial das décadas de 1820–1830 |
| Relevância Histórica | Símbolo do protagonismo feminino no século XIX e da atuação política em fatos como a Revolução Liberal de 1842 |
| Impacto | Preservação do acervo urbano histórico de Araxá e da memória social mineira |
Dona Beja destacou-se por sua influente participação social, econômica e política, desafiando as convenções morais e conservadoras do seu tempo e consolidando-se como figura central no imaginário e na história do estado.












































