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Minas Um Luxo

Aqui, todo mundo vai querer APARECER!

Nem todo vazio é falta

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Às vezes, o espaço que assusta é exatamente aquele de que você precisava.

Pode entrar.

Hoje, talvez o Divã não tenha respostas prontas para você.

Talvez ele tenha apenas silêncio.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando na sua vida: um pouco de espaço para perceber o que você sente quando não está ocupado tentando preencher tudo.

Ao longo dos últimos textos desta coluna, percorremos caminhos que, de alguma forma, se encontram. Falamos sobre aquilo que aprendemos a ser para sobreviver, sobre versões de nós mesmos que já cumpriram o seu papel, sobre a mudança que incomoda quem estava acostumado com a nossa permanência, sobre a culpa que pode surgir quando começamos a agir de maneira diferente e, mais recentemente, sobre aquilo que simplesmente já não cabe mais.

Mas existe uma parte dessa história sobre a qual quase ninguém fala.

O que acontece depois?

O que acontece quando você finalmente percebe que algo já não faz sentido, deixa de ocupar aquele espaço e, de repente, sobra um vazio?

É nesse momento que muita gente se assusta.

Porque fomos ensinados a acreditar que todo espaço vazio precisa ser preenchido.

Uma relação termina, e parece que é preciso encontrar outra.

Uma rotina deixa de fazer sentido, e imediatamente precisamos construir uma nova.

Uma amizade se distancia, e tentamos ocupar o silêncio com outras pessoas.

Um ciclo termina, e já queremos saber qual será o próximo.

Como se a vida não pudesse suportar intervalos.

Como se o vazio fosse sempre uma prova de que alguma coisa está faltando.

Mas nem todo vazio é falta.

Às vezes, é espaço.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

A falta nos faz acreditar que precisamos recuperar algo.

O espaço nos permite descobrir o que pode nascer ali.

Talvez você esteja vivendo uma fase assim.

Nada necessariamente está errado. Mas alguma coisa mudou.

Você deixou de insistir em determinadas conversas.

Parou de frequentar alguns lugares.

Começou a perceber que certas relações exigiam de você uma versão que já não existe mais.

Abandonou hábitos que durante muito tempo fizeram parte da sua rotina.

E agora existe uma sensação difícil de explicar.

Porque aquilo que existia já não está exatamente da mesma forma.

Mas aquilo que virá ainda não chegou.

E você fica no meio.

Entre o que deixou de ser e aquilo que ainda não sabe o que será.

Esse lugar pode ser profundamente desconfortável.

Porque o ser humano gosta de respostas.

Gostamos de saber onde estamos.

Gostamos de nomear as coisas.

Gostamos de ter certeza de que fizemos a escolha certa.

Mas existem momentos em que a vida não oferece imediatamente uma explicação.

Ela apenas abre um espaço.

E talvez o problema seja que, diante desse espaço, nossa primeira reação seja correr para preenchê-lo.

Preenchemos a agenda.

Preenchemos o silêncio.

Preenchemos os dias.

Preenchemos a casa.

Preenchemos a cabeça.

Preenchemos a vida com coisas, pessoas, compromissos e distrações.

Qualquer coisa parece melhor do que sentar diante daquilo que ainda não sabemos nomear.

Mas talvez algumas perguntas precisem de silêncio para serem respondidas.

Talvez você não descubra o que realmente quer enquanto continua ocupado demais tentando manter tudo o que já não quer.

E talvez seja exatamente isso que o vazio oferece.

Espaço para perceber.

Espaço para respirar.

Espaço para escutar a si mesmo sem tantas vozes dizendo quem você deveria ser.

Porque há momentos em que não precisamos acrescentar mais nada à vida.

Precisamos apenas parar de carregar aquilo que já não precisa continuar conosco.

Nem tudo o que sai deixa um buraco.

Algumas coisas deixam espaço.

E espaço pode ser uma coisa bonita.

Pense em uma casa completamente cheia.

Não há lugar para uma nova cadeira.

Não há lugar para uma planta.

Não há espaço sequer para caminhar com tranquilidade.

Tudo está ocupado.

À primeira vista, aquela casa parece completa.

Mas talvez esteja apenas cheia demais.

E existe uma diferença entre uma vida completa e uma vida ocupada.

Talvez você também esteja descobrindo isso.

Durante muito tempo, você pode ter acreditado que uma vida cheia era uma vida feliz.

Agenda cheia.

Casa cheia.

Conversas constantes.

Pessoas por perto.

Responsabilidades.

Compromissos.

Demandas.

Tudo acontecendo.

Até que um dia você percebe que está cercado de tantas coisas que já não consegue encontrar a si mesmo no meio delas.

E talvez seja aí que alguma coisa precise sair.

Não porque era necessariamente ruim.

Não porque precisa ser apagada.

Não porque a história não teve valor.

Mas porque continuar ocupando aquele espaço já não faz sentido.

O difícil é aceitar que o vazio inicial pode fazer parte do processo.

Você pode sentir falta da rotina que abandonou, mesmo sabendo que ela não lhe fazia bem.

Pode sentir falta de uma pessoa, mesmo entendendo por que precisou se afastar.

Pode sentir falta de uma versão da sua vida que já não gostaria de viver novamente.

Pode até sentir saudade daquilo que decidiu deixar para trás.

E isso não significa que você tomou a decisão errada.

Sentir falta não é sempre um convite para voltar.

Às vezes, é apenas uma lembrança de que aquilo foi importante.

E coisas importantes também terminam.

Talvez amadurecer seja aprender a não transformar toda saudade em retorno.

A não interpretar todo silêncio como abandono.

A não preencher imediatamente cada espaço que a vida abre.

Porque existem vazios que precisam existir por algum tempo.

É no intervalo entre uma versão e outra que algumas respostas começam a aparecer.

É quando o barulho diminui que você percebe pensamentos que antes não conseguia ouvir.

É quando algumas pessoas se afastam que você começa a perceber como se sente na própria companhia.

E talvez exista uma confusão que muitas pessoas ainda fazem: acreditar que estar só significa estar incompleto.

Mas estar só não significa, necessariamente, estar faltando.

Você pode estar só e estar inteiro.

E estar inteiro é conseguir existir de dentro para fora sem precisar transformar outra pessoa em um complemento para aquilo que você acredita que falta em você.

Isso não significa escolher viver sozinho.

Não significa não desejar uma relação, uma amizade, uma família ou pessoas com quem compartilhar a vida.

Somos seres de vínculos.

Precisamos de encontros, de afeto, de troca.

Mas existe uma diferença entre compartilhar a vida com alguém e precisar de alguém para sentir que a sua vida está completa.

Quando você está inteiro, a presença do outro não vem para preencher um vazio que deveria ser ocupado por você.

Ela vem para acrescentar.

E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de estar com alguém: não porque você não consegue existir sozinho, mas porque, podendo existir inteiro, escolhe compartilhar aquilo que é com outra pessoa.

Estar só, portanto, não precisa significar solidão.

Porque solidão não é apenas a ausência de pessoas.

Às vezes, a solidão acontece justamente no meio delas.

Você pode estar em uma sala cheia e não se sentir presente.

Pode estar cercado de pessoas e perceber que ninguém realmente sabe o que está acontecendo dentro de você.

Pode estar em uma relação e, ainda assim, sentir-se distante.

Pode conversar, sorrir, participar de tudo e, mesmo assim, perceber que alguma parte sua ficou ausente.

Porque companhia, por si só, não garante presença.

E talvez esse seja outro aprendizado importante:

estar acompanhado não significa, necessariamente, estar conectado.

Há pessoas que passam tanto tempo tentando não ficar sozinhas que aceitam qualquer presença apenas para não enfrentar a própria ausência.

Mas, quando aprendemos a desfrutar da nossa própria companhia, algo muda.

Você deixa de precisar estar com alguém a qualquer custo.

E passa a escolher com quem realmente deseja estar.

Quando está sozinho, consegue permanecer consigo.

Quando está com alguém, consegue estar presente de verdade.

Não apenas ocupar um lugar.

Não apenas preencher um espaço.

Não apenas fazer parte de um ambiente.

Mas estar ali.

Inteiro.

Porque talvez uma vida inteira não seja aquela em que não existe espaço vazio.

Talvez seja aquela em que você não precisa mais usar pessoas, relações e distrações para fugir de si mesmo.

Estar só não significa estar pela metade.

Você pode estar só.

E estar inteiro.

E, justamente por estar inteiro, pode compartilhar a sua vida sem precisar entregar ao outro a responsabilidade de completá-lo.

Talvez ainda não saiba o que fazer com toda essa liberdade.

E tudo bem.

Nem sempre precisamos saber imediatamente.

Há quem tenha passado a vida inteira ocupando todos os espaços porque nunca aprendeu a permanecer em silêncio consigo mesmo.

Há quem confunda paz com tédio.

Há quem confunda tranquilidade com solidão.

Há quem se sinta estranho quando finalmente não existe uma crise para resolver.

Porque, quando o caos foi familiar durante muito tempo, a calma pode parecer vazia.

Mas talvez não seja.

Talvez seja apenas nova.

E tudo aquilo que é novo, no começo, pode causar estranhamento.

Você não precisa preencher imediatamente a vida que está reconstruindo.

Não precisa encontrar outra resposta no dia seguinte.

Não precisa substituir uma pessoa apenas porque outra saiu.

Não precisa criar uma nova versão de si antes mesmo de compreender quem deixou de ser.

Talvez você possa simplesmente permanecer um pouco nesse espaço.

Sem pressa.

Sem a obrigação de transformar imediatamente o vazio em alguma coisa bonita.

Alguns espaços precisam ficar vazios antes de sabermos o que realmente queremos colocar neles.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da transformação: suportar o intervalo.

Aquele momento em que você já não pertence completamente ao que ficou para trás, mas ainda não se reconhece inteiramente no que está por vir.

É um território desconhecido.

Mas desconhecido não significa errado.

Às vezes, significa apenas que você nunca esteve ali antes.

E talvez seja exatamente por isso que você precise se permitir ficar.

Porque nem toda ausência é perda.

Nem todo fim é fracasso.

Nem todo silêncio precisa ser preenchido.

E nem todo vazio significa que está faltando alguma coisa.

Às vezes, o vazio é apenas a prova de que você finalmente abriu espaço para uma vida que ainda está aprendendo a construir.

Então, antes de correr para preencher tudo novamente, talvez valha a pena perguntar:

O que realmente está faltando?

E, principalmente:

O que apenas deixou de ocupar um espaço que já não lhe pertencia?

Talvez as respostas não venham imediatamente.

Mas algumas coisas não precisam ser apressadas.

Há espaços que primeiro precisam ser sentidos.

Depois compreendidos.

E, somente então, preenchidos, se é que precisam ser.

Porque talvez você descubra que aquilo que chamou de vazio era, na verdade, a primeira vez em muito tempo que havia espaço suficiente para você existir.

Isso não é sobre o outro. É sobre você.

📷 Capa – Imagem gerada por IA

Evanilde Almeida Pires

Evanilde Almeida Pires é terapeuta especializada em Reprocessamento Generativo (TRG) e psicanalista, com atuação voltada ao desenvolvimento emocional e à promoção de consciência e responsabilidade sobre a própria história.
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