Existe uma cena que me emociona muito no mundo do vinho.
Não é só a taça servida.
Não é só o rótulo bonito.
Não é só a medalha pendurada no pescoço da garrafa.
É ver um produtor brasileiro, muitas vezes mineiro, muitas vezes vindo de uma região que até pouco tempo nem era lembrada quando o assunto era vinho, sendo reconhecido em um dos concursos mais importantes do mundo.
E aí vem a pergunta que não quer calar:
Se os nossos vinhos estão tão bons, por que ainda é tão difícil fazer com que mais pessoas tenham acesso a eles?
A resposta passa por um caminho pouco romântico, mas extremamente necessário: a carga tributária.
Nos últimos dias, Minas Gerais voltou a ocupar um lugar de destaque no mapa internacional do vinho. O Brasil conquistou 221 medalhas no Decanter World Wine Awards 2026. Dessas, 78 vieram de vinhos elaborados pelo sistema de dupla poda, os nossos conhecidos vinhos de inverno.
Para quem acompanha esse movimento de perto, isso não é surpresa. É consequência.
Consequência de estudo, pesquisa, coragem, investimento, altitude, amplitude térmica, solo, gente séria e muita persistência.
A dupla poda mudou o jogo.
Ela permitiu que regiões como o Sul de Minas, a Mantiqueira e outras áreas de altitude passassem a colher uvas no inverno, em condições mais secas e favoráveis à maturação. O resultado está na taça: vinhos mais concentrados, mais limpos, mais expressivos e com identidade própria.
Mas existe uma distância enorme entre produzir um grande vinho e fazer esse vinho chegar à mesa de mais brasileiros.
E é aqui que entra o ponto mais delicado.
Durante muito tempo, o vinho produzido em Minas Gerais esteve sujeito a uma carga interna pesada de ICMS, em torno de 25%. Para um setor que ainda está se estruturando, isso pesa. Pesa no produtor, pesa no distribuidor, pesa na loja, pesa no restaurante e, claro, pesa no consumidor final.
A boa notícia é que Minas Gerais criou um Tratamento Tributário Setorial específico para o vinho produzido no estado, reduzindo a carga final para 3% para os produtores enquadrados nesse regime especial.
Isso é importante.
Muito importante.
Mas ainda não resolve tudo.
Porque vinho não nasce apenas da uva. Ele nasce de uma cadeia inteira.
Tem garrafa.
Rótulo.
Rolha.
Cápsula.
Caixa.
Transporte.
Mão de obra.
Energia.
Equipamentos.
Impostos federais.
Impostos estaduais.
Burocracia.
Margens apertadas.
Risco climático.
Tempo de espera.
E, no caso dos vinhos de inverno, ainda existe um ingrediente extra: paciência.

Não se faz um vinho de alta qualidade da noite para o dia. O produtor planta, poda, espera, colhe, vinifica, amadurece, engarrafa, guarda, registra, vende. E, antes mesmo de o consumidor abrir a garrafa, uma parte significativa do caminho já foi tomada por custos e tributos.
Por isso, quando alguém olha para um vinho mineiro e diz “está caro”, eu sempre penso: caro em relação a quê?
Caro em relação ao vinho industrializado que chega em massa ao mercado?
Caro em relação ao vinho importado que vem de países com outra estrutura tributária?
Caro em relação ao desconhecimento que ainda temos sobre o que está sendo produzido aqui?
Porque, muitas vezes, o que falta não é qualidade.
É contexto.
O vinho mineiro não está tentando copiar ninguém.
Ele está construindo sua própria assinatura.
E isso tem um valor enorme.
Quando um rótulo de Minas ganha medalha na Decanter, ele não está apenas colocando uma garrafa no pódio. Ele está levando junto o nome de uma região, o trabalho de pesquisadores, a coragem de produtores e a possibilidade de o Brasil ser visto não apenas como consumidor de vinho, mas como produtor de vinhos sérios, competitivos e emocionantes.
O problema é que reconhecimento internacional não paga imposto.
Medalha não reduz custo de produção.
Pontuação alta não resolve a complexidade tributária.
Ela ajuda, claro.
Abre portas.
Gera desejo.
Traz visibilidade.
Mas, para o vinho brasileiro crescer de verdade, precisamos falar também sobre acesso.
E acesso não significa banalizar o vinho.
Não significa desvalorizar o produtor.
Não significa transformar vinho de boutique em produto de prateleira sem alma.
Acesso significa permitir que mais pessoas conheçam, provem e entendam o que está sendo feito aqui.
Significa dar ao consumidor brasileiro a chance de descobrir que Minas Gerais produz vinhos de altíssimo nível.
Significa permitir que o produtor continue investindo sem ser sufocado.
Significa fazer com que o vinho nacional deixe de ser tratado como exceção e passe a ocupar o lugar que merece na mesa, na adega e na memória das pessoas.
Eu sou apaixonada pelos vinhos de dupla poda.
Especialmente pelos vinhos de Minas Gerais.
Não apenas porque são bons.
Mas porque eles contam uma história de virada.
Durante muito tempo, o Brasil foi colocado em uma posição tímida no mundo do vinho. Como se bons vinhos só pudessem vir de fora. Como se qualidade precisasse ter sotaque francês, italiano, espanhol, chileno ou argentino.

Hoje, a taça está mostrando outra coisa.
Minas tem terroir.
Tem pesquisa.
Tem produtor competente.
Tem vinho premiado.
Tem identidade.
Agora, precisa também de um ambiente mais justo para crescer.
A redução da carga tributária não é um favor ao produtor.
É uma escolha estratégica para valorizar uma cadeia que gera turismo, emprego, cultura, gastronomia, desenvolvimento regional e orgulho nacional.

Porque vinho não é só bebida.
Vinho movimenta restaurantes.
Hotéis.
Pousadas.
Guias.
Sommeliers.
Lojas especializadas.
Eventos.
Viagens.
Produtores locais.
Queijarias.
Charcutarias.
Artesãos.
Experiências.
Vinícola Bárbara Eliodora – São Gonçalo do Sapucaí/MG
Quando uma vinícola cresce, muita gente cresce junto.
E talvez seja isso que ainda precise ser melhor compreendido.
O vinho mineiro já provou que tem qualidade.
Agora, precisa de espaço para chegar mais longe.
E nós, que acreditamos nesse movimento, temos um papel importante: falar sobre ele, consumir com consciência, apresentar esses rótulos a mais pessoas e defender uma cadeia que merece ser vista com mais seriedade.
Porque cada garrafa premiada carrega muito mais do que vinho.
Carrega solo.
Clima.
Ciência.
Trabalho.
Persistência.
História.
E, principalmente, futuro.
Que venham mais medalhas.
Que venham mais vinícolas.
Que venham mais consumidores curiosos.
E que venha, um dia, uma carga tributária mais justa para que esses vinhos deixem de ser privilégio de poucos e passem a fazer parte da vida de muitos.
Minas já está na taça.
Agora falta o Brasil conseguir brindar com ela.
📷Capa: Vinícola Mil Vidas – Ritápolis/MG












































