Manifestação bicentenária de matriz quilombola, que une fé, máscaras e dança na Festa de São João, recebeu equipe técnica da Secult-MG para a produção de dossiê de salvaguarda.
Uma das manifestações mais ricas, misteriosas e vibrantes da cultura popular do Noroeste de Minas deu um passo decisivo rumo à sua salvaguarda definitiva. O Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), iniciou oficialmente o processo de documentação da Caretagem de Paracatu para registrá-la como patrimônio cultural imaterial do Estado.
Nesta terça-feira (23/6), uma equipe técnica da Secult-MG acompanhou os festejos no município para realizar registros audiovisuais, entrevistas e relatórios institucionais. Esse material será organizado e encaminhado ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) para subsidiar a construção do dossiê de reconhecimento.
Presente há mais de dois séculos na região, a Caretagem é profundamente vinculada às comunidades quilombolas e à devoção a São João. A celebração reúne dança, música, indumentárias coloridas, guizos e máscaras artesanais. Os “caretas” percorrem ruas e casas, transformando o espaço urbano em um território de memória, resistência e identidade coletiva.
Identidade única no mundo
Embora dialogue simbolicamente com tradições de mascarados europeus — como os famosos Caretos de Podence, em Portugal —, a Caretagem de Paracatu foi inteiramente recriada a partir da experiência afro-brasileira e da religiosidade popular.
Para o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira, a singularidade da festa justifica o esforço de proteção estatal:
“A Festa de São João de Paracatu é única no mundo. Não existe outra celebração que reúna, da mesma forma, ancestralidade quilombola, cultura afro-mineira, devoção popular, máscaras, música, dança e memória comunitária. A Caretagem é uma expressão extraordinária da civilização mineira e um patrimônio vivo construído pela fé, pela resistência e pela criatividade de seu povo.”
O secretário ainda aponta que a permanência da tradição por mais de 200 anos se deve ao fato de ter sido “incorporada à alma da comunidade”, atravessando gerações pela força do afeto e da tradição oral.

Reconhecimento e Futuro
O prefeito de Paracatu, Pedro Aguiar Adjuto, celebrou a presença do Estado na festividade, encarando o momento como um divisor de águas para a valorização dos saberes locais. “A Caretagem é parte da nossa identidade e das comunidades que a mantêm viva há séculos. Esse acompanhamento representa reconhecimento, respeito e compromisso com a preservação dessa herança para as futuras gerações”, declarou.
Os objetivos do registro imaterial incluem:
- Fortalecer a salvaguarda: Proteger os rituais contra a descaracterização;
- Valorizar os detentores: Reconhecer os mestres artesãos, músicos e “brincantes” guardiões da tradição;
- Fomento ao turismo: Ampliar a visibilidade de Paracatu nas políticas públicas estaduais de cultura e turismo cultural.
Com o encerramento das festividades de São João e a consolidação dos dados coletados, o dossiê entra em fase de análise técnica e histórica no Iepha-MG, aproximando Paracatu de um merecido título que chancela a potência de sua cultura popular.
📷 Capa: Crédito: Felipe Natanael












































