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Minas Um Luxo

Aqui, todo mundo vai querer APARECER!

VOCÊ NÃO PRECISA CONTINUAR SENDO QUEM PRECISOU SER

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Algumas versões de nós mesmos nasceram para sobreviver a determinadas fases. O problema começa quando continuamos vivendo como se ainda estivéssemos nelas.

Pode entrar.

O Divã já está à sua espera.

Talvez você tenha passado tanto tempo tentando entender quem é que nunca parou para pensar em uma pergunta diferente:

Quem você precisou ser para chegar até aqui?

Porque existe uma diferença enorme entre ser quem somos e ter aprendido a ser alguém para atravessar determinadas fases da vida.

Talvez você tenha precisado ser forte.

Talvez tenha precisado ser independente.

Talvez tenha aprendido a não pedir ajuda.

Talvez tenha se tornado aquela pessoa que resolve tudo.

A que acalma todo mundo.

A que não dá trabalho.

A que sempre diz “está tudo bem”.

A que suporta.

A que continua.

E talvez, em algum momento, tudo isso tenha sido necessário.

Eu conheço esse lugar.

Na minha primeira gravidez, eu estava vivendo um momento de muita felicidade. Eu e meu marido estávamos felizes, fazendo planos e esperando aquele filho com todo o amor e a expectativa que acompanham uma gestação.

Até que um pequeno sangramento me levou ao médico.

E veio uma notícia para a qual eu não estava preparada: o feto não havia se desenvolvido e não iria se desenvolver.

Eu fiquei em choque.

Não conseguia pensar. Não conseguia responder.

Havia uma decisão a ser tomada, mas naquele momento eu simplesmente não conseguia tomá-la.

Meu marido decidiu por mim. Não porque quisesse tirar de mim o direito de escolher, mas porque não queria me ver sofrer ainda mais. Ele acreditou que realizar o procedimento naquele momento evitaria que eu precisasse atravessar também a dor de esperar que o meu corpo realizasse naturalmente aquele processo.

Fui internada.

E, enquanto o procedimento acontecia, percebi que meu marido também estava profundamente abalado. Ele começou a questionar tudo, a desacreditar, a procurar respostas para uma situação que não tinha uma resposta capaz de diminuir aquela dor.

E então aconteceu algo muito comum quando a vida nos coloca diante do impensável.

Mesmo sofrendo, eu me recompus.

Eu precisava ser forte.

Não porque eu não estivesse doendo.

Mas porque, naquele instante, senti que, se eu também desabasse, ele desabaria comigo.

Então eu fui forte.

Aquela versão de mim foi necessária naquele momento.

Ela me ajudou a atravessar algo que eu jamais teria escolhido viver.

E talvez você também tenha uma história assim.

Talvez tenha existido um momento em que você precisou ser alguém que não imaginava que conseguiria ser.

Precisou cuidar enquanto também precisava ser cuidado.

Precisou trabalhar enquanto estava destruído por dentro.

Precisou tomar decisões quando tudo o que queria era parar.

Precisou continuar quando tudo em você pedia uma pausa.

E talvez tenha sido justamente nesses momentos que você aprendeu determinadas formas de existir.

O problema é que aquilo que nasce como uma resposta a uma circunstância pode, com o tempo, transformar-se em identidade.

Você não diz mais:

“Eu aprendi a resolver tudo sozinho.”

Você começa a dizer:

“Eu sou assim. Eu não preciso de ninguém.”

Você não diz:

“Eu aprendi a esconder o que sinto.”

Passa a dizer:

“Eu sou uma pessoa fria.”

Você não diz:

“Eu aprendi a controlar porque precisava me sentir seguro.”

Diz:

“Eu sou controladora.”

E talvez essa diferença pareça pequena.

Mas ela muda tudo.

Porque quando você acredita que aquilo é quem você é, começa a imaginar que não existe outra possibilidade.

Mas existe.

Talvez você não seja incapaz de confiar.

Talvez tenha aprendido a desconfiar.

Talvez você não seja fria.

Talvez tenha aprendido a se proteger.

Talvez você não seja controladora.

Talvez tenha aprendido que, quando não controla, alguma coisa pode dar errado.

Talvez você não seja alguém que precisa dar conta de tudo.

Talvez tenha aprendido, em algum momento, que não havia ninguém para fazer isso por você.

Perceber essa diferença não significa encontrar desculpas para aquilo que fazemos.

Significa encontrar compreensão suficiente para poder escolher diferente.

Porque consciência não serve apenas para explicar o passado.

Ela serve para ampliar as possibilidades do presente.

Você pode compreender por que se tornou quem se tornou sem precisar permanecer sendo essa pessoa para sempre.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da mudança.

Porque até aquilo que nos machuca pode se tornar familiar.

E o familiar, mesmo quando dói, muitas vezes parece mais seguro do que o desconhecido.

Por isso algumas pessoas permanecem em lugares que já não desejam.

Repetem relações que já não fazem sentido.

Mantêm comportamentos que as fazem sofrer.

Recusam novas possibilidades.

Não necessariamente porque gostam daquela vida.

Mas porque ainda não sabem quem serão quando deixarem de ser quem sempre foram.

Existe um certo luto nisso.

Porque mudar não significa apenas abandonar comportamentos.

Às vezes, significa se despedir de uma versão de nós mesmos.

Daquela versão que sobreviveu.

Que suportou.

Que protegeu.

Que fez o que conseguiu com os recursos que tinha.

E talvez ela mereça, antes de ser deixada para trás, ser reconhecida.

Você chegou até aqui porque aquela versão fez o melhor que podia.

Mas ela não precisa continuar dirigindo a sua vida.

Hoje, olhando para aquela mulher que eu fui naquele momento da minha primeira gravidez, consigo compreender algo que talvez eu não tivesse condições de compreender naquela época:

eu fui forte porque precisei ser.

Mas eu não preciso continuar sendo forte o tempo inteiro.

Eu não preciso carregar tudo sozinha.

Hoje eu sei que existem pessoas com quem posso contar.

E reconhecer isso não diminui a mulher que eu fui naquele momento.

Pelo contrário.

Me permite acolhê-la.

Porque ela fez o que conseguiu fazer diante daquilo que estava vivendo.

Mas a vida continuou.

E eu também continuei.

Só que diferente.

Talvez seja isso que muitas vezes precisamos compreender sobre nós mesmos.

A pessoa que você precisou ser em determinado momento não precisa ser a pessoa que você continuará sendo para sempre.

Você pode agradecer àquela versão.

Pode reconhecer sua coragem.

Pode compreender seus mecanismos de proteção.

Pode até reconhecer que, em algum momento, eles foram fundamentais.

Mas também pode dizer:

“Eu não preciso mais viver dessa maneira.”

Não precisamos apagar nossa história para construir uma nova forma de viver.

Precisamos apenas parar de confundir história com destino.

O que aconteceu com você faz parte da sua história.

O que você aprendeu também.

Mas nenhuma dessas coisas precisa determinar, para sempre, o que você será daqui para frente.

Talvez amadurecer seja exatamente isso:

perceber que algumas versões nossas foram necessárias, mas não precisam ser permanentes.

Aquela pessoa que aprendeu a sobreviver pode, finalmente, aprender a viver.

Aquela que precisou ser forte o tempo inteiro pode descobrir que também pode descansar.

Aquela que precisou agradar pode aprender a se posicionar.

Aquela que precisou controlar pode aprender a confiar.

Aquela que precisou esconder pode descobrir que ser vista não é necessariamente perigoso.

E aquela que passou tanto tempo tentando caber pode perceber que não precisa diminuir a si mesma para existir.

Talvez você tenha passado muito tempo tentando entender quem é.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante:

Quem você está disposto a deixar de ser?

Porque algumas mudanças não começam quando descobrimos uma nova versão de nós mesmos.

Começam quando reconhecemos que já não precisamos continuar vivendo de acordo com uma versão antiga.

E talvez seja aí que a vida comece a ganhar novos contornos.

Não quando você finalmente se torna outra pessoa.

Mas quando percebe que pode continuar sendo você, só que de uma maneira mais consciente, mais livre e mais inteira.

Talvez você não precise se tornar alguém novo.

Talvez precise apenas permitir que algumas versões antigas de você finalmente descansem.

📷 Capa – Imagem criada por IA

Evanilde Almeida Pires

Evanilde Almeida Pires é terapeuta especializada em Reprocessamento Generativo (TRG) e psicanalista, com atuação voltada ao desenvolvimento emocional e à promoção de consciência e responsabilidade sobre a própria história.
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