Encontro inédito entre os artistas afrodiaspóricos Fernando Costaa e Babilak Bah propõe reflexão sobre o trabalho, o sagrado e a luta pela terra através de gravuras e esculturas em ferro.
A partir deste mês, as espirais do tempo, onde o passado ancestral e o futuro se entrelaçam, ganham as galerias de Belo Horizonte. O projeto Oríenxadigma inicia uma circulação por quatro regionais da capital mineira, promovendo um diálogo potente entre as produções dos artistas visuais Fernando Costaa e Babilak Bah.
A jornada começa no próximo sábado, 30 de maio, às 14h30, com a abertura oficial no Centro Cultural Venda Nova. Reunindo um acervo de 20 obras (dez de cada artista), a exposição gratuita investiga a memória afrodiaspórica em Minas Gerais, perpassando temas como a cosmologia africana, os Orixás, o trabalho escravizado e a resistência quilombola pela terra.
Do Ônibus para as Galerias: O Encontro de Dois Homens Negros
A ideia da mostra nasceu de forma despretensiosa, mas urgente. Compartilhando o mesmo bairro e as mesmas viagens de transporte coletivo pela capital, Fernando Costaa e Babilak Bah perceberam, nas conversas de banco de ônibus e nas esquinas da cena cultural, que suas obras operavam na mesma frequência espiritual e estética.

“Trabalhar colaborativamente tem sido uma oportunidade de estabelecer trocas de experiências. A investigação do universo afrodiaspórico de Babilak me estimula a pensar novos ângulos da questão em minhas criações”, pontua Fernando Costaa.
Fernando Costaa – Crédito: Babilak Bah

Babilak Bah reforça o impacto dessa parceria:
“Nossa troca se dá nos campos estético, subjetivo e espiritual. Dos encontros entre dois homens negros no ônibus surgiu a decisão de unir nossos trabalhos, resultando em uma experiência potente e significativa.”
Oríenxadigma – Babilak Bah – Crédito: Icaro Moreno
O Diálogo das Obras: Enxadigmas e Origrafias
A exposição promove o contraste complementar entre o ferro e o papel, a ferramenta e o corpo.
As Esculturas de Babilak Bah: Enxadigmas
O multiartista Babilak Bah apresenta esculturas de ferro confeccionadas a partir de enxadas. As peças funcionam como híbridos de ferramentas e instrumentos musicais: quando tocadas, ecoam o som das lavouras, dos terreiros e das rebeliões. A enxada — historicamente associada ao trabalho forçado no campo e na mineração colonial — é ressignificada como arma de criação artística e denúncia, apontando também para os impactos atuais das grandes corporações mineradoras no estado.
As Gravuras de Fernando Costaa: Origrafias
Fernando Costaa, que também é geógrafo, traz gravuras onde rostos ancestrais do passado emergem para encarar o espectador do presente. O trabalho gira em torno do conceito yorubá de Orí (a cabeça como morada do destino e portal dos antepassados). Para o artista, as obras funcionam como dispositivos de memória: um espelho para o reconhecimento e uma montanha para projetar novos horizontes, contrapondo o apagamento histórico da população negra.
Descentralização Política e Formação Artística
A escolha por realizar a mostra exclusivamente em centros culturais municipais periféricos — nas regionais Venda Nova, Norte, Noroeste e Nordeste — é uma decisão política e estratégica do projeto, que conta com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
A intenção é democratizar o acesso à arte não massificada e dialogar diretamente com as comunidades historicamente mais afetadas pela exclusão socioespacial. Além das mostras, o projeto oferecerá oficinas formativas gratuitas e abertas ao público:
- Oficina “Plantas Afrodiaspóricas” (com Fernando Costaa): Debaterá a memória e os preconceitos cotidianos por meio da botânica trazida pela diáspora. Ocorre em 20 de junho (Venda Nova) e 14 de novembro (Usina da Cultura).
- Oficina “Laboratório de Linguagem: Ritmo, Corpo e Palavra” (com Babilak Bah): Investigará as dimensões corporais e rítmicas ligadas às artes visuais. Acontece em 25 de julho (Lagoa do Nado).
Presença Ilustre no encerramento
Para fechar o circuito com chave de ouro, no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), o Centro Cultural Usina da Cultura receberá uma palestra especial da ensaísta, dramaturga e Professora Emérita da UFMG, Leda Maria Martins, que compartilhará suas percepções e cruzamentos teóricos sobre a exposição Oríenxadigma.
Serviço
- Evento: Exposição Oríenxadigma
- Artistas: Fernando Costaa e Babilak Bah
- Entrada: Gratuita
- Informações e Inscrições para Oficinas: Através do Instagram @orienxadigma
Cronograma do Circuito de Exposições (2026):
- Regional Venda Nova
- Período: 30 de maio a 30 de junho (Abertura: 30/05 às 14h30)
- Local: Centro Cultural Venda Nova (Rua José Ferreira Santos, 184 – Jardim dos Comerciários)
- Oficina “Plantas Afrodiaspóricas”: 20 de junho, das 10h às 12h.
- Regional Norte
- Período: 04 de julho a 04 de agosto
- Local: Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional – Lagoa do Nado (Rua Ministro Hermenegildo de Barros, 904 – Itapoã)
- Oficina “Ritmo, Corpo e Palavra”: 25 de julho, das 10h às 12h.
- Regional Noroeste
- Período: 12 de setembro a 05 de outubro
- Local: Centro Cultural Padre Eustáquio (Rua Jacutinga, 550 – Padre Eustáquio)
- Regional Nordeste
- Período: 07 de novembro a 07 de dezembro
- Local: Centro Cultural Usina da Cultura (Rua Dom Cabral, 765 – Ipiranga)
- Oficina “Plantas Afrodiaspóricas”: 14 de novembro, das 10h às 12h.
- Palestra com Leda Maria Martins: 20 de novembro, das 10h às 11h30.
📷 Capa: Oríenxadigma – Crédito: Icaro Moreno












































