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Minas Um Luxo

Aqui, todo mundo vai querer APARECER!

O perigo de viver no automático

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Os dias passam, a rotina se repete e, quando percebemos, mais um ano foi embora. Mas o que, de fato, vivemos nesse tempo?

Pode entrar. O Divã já está à sua espera.

O despertador toca.

Você acorda, escova os dentes, toma banho, prepara o café e começa mais um dia. Vai trabalhar, cumpre suas tarefas, resolve problemas, responde mensagens, enfrenta o trânsito e volta para casa.

Janta, organiza alguma coisa, toma banho novamente, mexe um pouco no celular e vai dormir.

No dia seguinte, tudo começa outra vez.

De segunda a sexta, a rotina parece ter um roteiro próprio. E, quando chega o fim de semana, surge aquela sensação de que finalmente você terá tempo para fazer alguma coisa diferente.

Mas o que acontece?

Às vezes, você acorda mais tarde, pega o celular, começa a olhar uma publicação, depois outra, assiste a um vídeo, responde alguém, passa para outra rede social e, quando percebe, algumas horas desapareceram.

Pensa em fazer alguma coisa, mas acaba deixando para depois.

O sábado termina. O domingo também.

E, na segunda-feira, o despertador toca novamente.

Mais uma semana começa. Mais uma rotina se repete.

Até que chega dezembro.

E, quase sem perceber, você se pergunta: como assim, o ano está acabando?

Parece que foi ontem que ele começou.

Você tenta lembrar o que fez de diferente, quais lugares conheceu, quais experiências viveu, o que aprendeu, o que começou, o que realizou por vontade própria.

E, às vezes, a resposta é desconfortável: não consegue se lembrar de muita coisa.

Não porque nada tenha acontecido, mas porque os dias foram tão parecidos que parecem ter se misturado.

Essa é uma das armadilhas de viver no automático: estar ocupado o tempo inteiro e, ainda assim, ter a sensação de que não está vivendo aquilo que gostaria.

A rotina é necessária. Precisamos trabalhar, cuidar da casa, pagar contas, cumprir compromissos e assumir responsabilidades. Não existe uma vida sem obrigações.

Mas será que a vida precisa se resumir a elas?

Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?

Quando foi a última vez que conheceu um lugar novo, experimentou algo diferente, começou um projeto, aprendeu alguma coisa ou simplesmente fez algo porque tinha vontade?

E não estou falando de grandes viagens, experiências caras ou conquistas extraordinárias.

Pode ser uma caminhada em um lugar diferente, um livro que você gostaria de ler, uma receita que nunca tentou, uma conversa sem pressa, um encontro com alguém de quem sente saudade ou até mesmo algumas horas dedicadas a algo que lhe dá prazer.

O ponto não é fazer mais coisas.

É não deixar de existir dentro da própria rotina.

Porque, muitas vezes, quando finalmente temos tempo livre, não sabemos o que fazer com ele.

Estamos tão acostumados a responder às demandas externas que perdemos o contato com os nossos próprios interesses.

E o celular acaba ocupando esse espaço.

Pegamos o aparelho por alguns minutos e, sem perceber, permanecemos ali por horas. Passamos de uma publicação para outra, acompanhamos a vida de outras pessoas, vemos lugares que elas conheceram, experiências que viveram, conquistas que alcançaram.

Consumimos imagens de tantas vidas diferentes enquanto a nossa continua acontecendo do outro lado da tela.

E existe uma contradição nisso: sabemos o que aconteceu com pessoas que nem fazem parte da nossa convivência, mas, às vezes, não conseguimos responder o que fizemos por nós mesmos durante o dia.

Não se trata de demonizar a tecnologia ou dizer que descansar, assistir a vídeos e navegar pelas redes sociais seja um problema.

O problema é quando deixamos de escolher como queremos utilizar nosso tempo e passamos a entregá-lo automaticamente a qualquer estímulo que aparece.

Quando aquele “vou olhar só um pouquinho” se transforma em horas.

Quando o tempo que poderia ser utilizado para experimentar alguma coisa nova desaparece sem que sequer percebamos.

E os dias continuam passando.

Talvez você esteja esperando as férias para aproveitar a vida.

Esperando ter mais dinheiro para conhecer um lugar diferente.

Esperando alguém para fazer companhia.

Esperando a rotina ficar menos cansativa.

Esperando o momento em que terá mais disposição, mais tempo ou melhores condições.

Mas será que, enquanto espera, não está deixando de perceber as possibilidades que já existem?

É claro que existem limitações reais. Nem todo mundo tem o mesmo tempo, dinheiro, disposição ou liberdade para fazer aquilo que deseja. Não se trata de ignorar as dificuldades de cada pessoa.

Mas também precisamos reconhecer que, dentro das possibilidades que temos, existem escolhas que podem ser revistas.

Talvez você não consiga viajar agora, mas possa conhecer um lugar da sua própria cidade.

Talvez não consiga mudar de trabalho neste momento, mas possa reservar algum tempo para desenvolver algo que deseja.

Talvez não consiga transformar toda a sua rotina, mas possa começar a separar um espaço para aquilo que não seja apenas obrigação.

Pequenas experiências também constroem uma vida.

O que precisamos questionar é quando deixamos de fazer qualquer movimento em direção ao que nos desperta interesse, prazer ou curiosidade.

Quando tudo fica para depois.

Quando os planos são sempre adiados.

Quando a vida parece estar permanentemente esperando uma oportunidade para acontecer.

E talvez o mais preocupante seja que nos acostumamos.

Acostumamos a repetir os mesmos dias, a adiar os mesmos desejos e a dizer que não temos tempo.

Até que um ano termina e outro começa, trazendo promessas que, muitas vezes, já fizemos antes.

Desta vez vou cuidar mais de mim.

Vou fazer aquela atividade.

Vou conhecer aquele lugar.

Vou começar aquele projeto.

Vou aproveitar melhor os meus dias.

Mas, se nada muda na maneira como conduzimos a rotina, existe uma grande possibilidade de chegarmos ao próximo dezembro com as mesmas promessas.

Por isso, sair do automático exige mais do que desejar uma vida diferente. Exige perceber onde estamos colocando nosso tempo, quais escolhas estamos repetindo e o que estamos deixando de experimentar.

Não significa preencher todos os espaços da agenda, transformar descanso em produtividade ou viver em busca de novidades o tempo inteiro.

Significa recuperar a capacidade de escolher.

Escolher estar presente em uma conversa, em vez de dividir a atenção com o celular.

Escolher fazer algo por prazer, sem precisar justificar sua utilidade.

Escolher conhecer um lugar, aprender alguma coisa, retomar um interesse ou simplesmente permitir-se viver uma experiência diferente.

E, principalmente, compreender que o tempo dedicado a você também merece espaço na sua vida.

Talvez você não se lembre de todos os dias que passaram, mas certamente existem experiências que permanecem na memória. São elas que dão contorno às nossas histórias, que nos ensinam, nos transformam e nos lembram de que estamos participando da própria existência.

A vida não pode ser apenas uma sequência de obrigações cumpridas.

Não precisamos esperar o próximo ano para fazer algo diferente. Não precisamos esperar uma data especial, uma grande conquista ou uma mudança extraordinária para começar.

Podemos começar com o tempo que temos, com as condições que possuímos e com as possibilidades que estão ao nosso alcance.

Porque, quando você olha para trás, não deveria encontrar apenas uma lista de tarefas realizadas, contas pagas e compromissos cumpridos.

Também merece encontrar lembranças, descobertas, encontros, aprendizados e momentos que foram seus.

Então, antes que mais um mês passe, antes que outro ano termine, pare um instante e olhe para a sua rotina.

O que você tem feito de diferente? O que tem experimentado? O que tem aprendido? E, principalmente, o que tem feito por você?

Não espere chegar ao fim do ano para perceber que esteve ocupado demais para viver.

A vida acontece nos dias comuns também. E você merece estar presente neles.

Isso não é sobre o outro. É sobre você.

📷 Capa – Imagem gerada por IA

Evanilde Almeida Pires

Evanilde Almeida Pires é terapeuta especializada em Reprocessamento Generativo (TRG) e psicanalista, com atuação voltada ao desenvolvimento emocional e à promoção de consciência e responsabilidade sobre a própria história.
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